quarta-feira, 30 de novembro de 2016



A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Poesia de Cecília Meireles

Fotografia de André Vicente Gonçalves, criador do projeto “Windows Of The Word”.

Veneza, Itália.

E tudo era assim...

Nosso medo tinha muros baixos, nosso jardim era simples e bem cuidado, assim como os nossos conceitos, passados de geração para geração, de nossos avós para nossos pais.

Nossas janelas eram amplas, havia todo um horizonte à ser descoberto, mas a família era essencial nesse processo, e se abríssemos um pouco mais as folhas da janela, sempre contávamos com apoio ou um bom conselho.

Nossos portões eram de madeira, por vezes tão frágeis e quase sempre abertos ou somente encostados, não havia tanta necessidade de cadeados.Assim como nossas dificuldades poderiam ser vencidas mais facilmente. Batia-se palmas e logo alguém aparecia.

Os vizinhos? Ah, eram todos amigos. Não havia necessidade de cerca elétrica. Todos se conheciam. Era raro o caso de algum morador novo na rua não ser presenteado com um bolo de boas vindas. Se "usava" cumprimentar as pessoas. Sim, parece mentira, mas era comum dar um Bom Dia, Tarde e Noite por onde se passava. Fazer amizades era muito mais fácil assim, não concorda?

Nem todas as ruas tinham asfalto, mas isso não impedia as pessoas de se locomover e ir visitar um amigo querido.

Esse é o grande resgate que as pessoas buscam. Memorialistas não buscam apenas suspiros de saudades. E essa busca pelo vintage e retrô, nos mostra que atrás de cada telinha de computador, as pessoas ainda precisam e anseiam por contato real. Olhos nos olhos. As mãos que hoje teclam incessantemente a procura de "amizade" virtual, são as mesmas que precisam de um abraço de verdade. Não precisamos voltar no tempo, mas fazer o tempo voltar dentro de nós. Cultivando sempre o jardim! Sim, aquele mesmo jardim lá do ínicio desse texto.

O mundo precisa voltar a ser pessoal, esse é o resgate que enfim, tanto ansiamos.

 Margô Retrô

sábado, 3 de setembro de 2016

O mundo noturno é um mundo. A noite, é um universo.

Frase de Victor Hugo | Fotografia de Vivian Maier, 1957.





Chuvas de Primavera!






Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva 
Não faz ruído senão com sossego. 
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva 
Do que não sabe, o sentimento é cego. 
Chove. Meu ser (quem sou) renego... 

Tão calma é a chuva que se solta no ar 
(Nem parece de nuvens) que parece 
Que não é chuva, mas um sussurrar 
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece. 
Chove. Nada apetece... 

Não paira vento, não há céu que eu sinta. 
Chove longínqua e indistintamente, 
Como uma coisa certa que nos minta, 
Como um grande desejo que nos mente. 
Chove. Nada em mim sente... 

Fernando Pessoa


sábado, 20 de fevereiro de 2016

A Era de Ouro do Rádio: Comerciais e Jingles Famosos dos Anos 40.



Som, imaginação e sonhos, está no ar o Rádio Brasileiro!

No início do século passado, o Rádio revoluciona a vida dos brasileiros. E pouco depois surgiu a rádio comercial, que veículava publicidade junto com seus programas como os spots e principalmente os jingles.

O rádio teve sua expansão mundial após a Primeira Guerra (1914-1918), quando houve grande desenvolvimento nos meios eletrônicos e de comunicação para fins militares, e se firmou como principal veículo de comunicação em massa.

Entre 1930 e 1940 marcaram a ascensão e auge do Rádio no Brasil, a chamada “Era de Ouro do Rádio”.

A primeira transmissão de rádio no Brasil ocorreu em 07 de setembro de 1922 em comemoração ao centenário da Independência do Brasil, inaugurada pelo presidente Epitácio Pessoa.

A era do rádio comercial surge a partir de 1932, quando o presidente Getúlio Vargas, através do Decreto 21.111, autorizou as emissoras a ter até 10% de sua programação sob a forma de publicidade. Até aquele momento o rádio era sustentado apenas por contribuições de seus próprios ouvintes (as Rádio-Clubes), que eram os mesmos que ajudavam a fazer a programação.

Com a permissão da publicidade, se plantou a raiz do modelo de rádio que a partir da década de 40 se consolidou no país, o rádio como veículo comercial.


A chave de ignição da propaganda brasileira.

Mas, o que poucos sabem, é que foi a empresa "The Sidney Ross Company", o grande impulsionador da propraganda brasileira, o mais importante anunciante de todos os tempos, A Sidney Ross produzia grande número de medicamentos, como Melhoral, Sonrisal, Leite de Magnésia de Phillips, Sal de Fruta Andrews, Pílulas de Vida do Dr.Ross e cosméticos famosos como a brilhantina Glostora e o Talco Ross. 

Além de ser a primeira patrocinadora de uma novela no rádio brasileiro, "Em busca da felicidade" de 1941, pela Rádio Nacional do Rio de Janeiro.  Foi por décadas o maior anunciante da rádio, a primeira empresa a ter uma agência de publicidade própria, por muitos anos nossos avós se entretinham com o famoso Almanaque, uma fusão de tudo! Caléndários, piadas, propaganda, palavras cruzadas e muitos conselhos, sempre creditados à médicos famosos da época.

A Sidney Ross Company anunciava em todos os lugares, de outdoors até em bondes, muitos deles podem ser vistos hoje em fotografias da época. Foi a empresa que trouxe para o Brasil as modernas técnicas publicitárias americanas e toda a sua gestão em pesquisa de mercado, mídia, planejamento e segmentação de verbas, promoção junto aos médicos e hospitais, distribuíndo amostras grátis (em um só ano a Sidney Ross distribuiu no Brasil 27 milhões de amostras).


E surge a alma do negócio...



Tudo começou em 1901 quando a Sterling Drug Inc. foi fundada, a Sidney Ross Co. era sua subsidiária adquirida em 1938, desde o início, seu fundador, Eihard Weiss viu que a alma do negócio era a propaganda, investindo mais do que qualquer outro fabricante de medicamentos em publicidade. 

Em 1917, o Governo Americano confiscou a American Bayer Co. ao entrar na Primeira Guerra Mundial contra a Alemanha, e essa foi a grande oportunidade para Weiss, que a comprou e cessando a guerra, começou a produzir e vender o remédio mais popular e vendido no mundo desde 1893, a ASPIRINA BAYER, nos EUA e América Latina. Com o fim da guerra, a Bayer volta a vender seus produtos pelo mundo, e encontra a Sterling usando legalmente suas patentes na América Latina. A partir daí, forma-se um impasse e finalmente Bayer e Sterling firmam um acordo, dividindo o mercado da aspirina meio a meio, transação que não atendiam as exigências do Governo Americano, e durante décadas houve conflitos legais entre a Sterling e a Bayer, devido a divisão de mercados não ficar totalmente esclarecida para os EUA.

Em 1994, após 76 anos de conflitos legais, a Bayer finalmente compra a Sterling Drug, que através da Sidney Ross Company ficou tão conhecida em terra tupiniquins atráves de sua inovação e criação na publicidade, abrindo caminho a construção da mídia no Brasil.

E se Eihard Weiss e Sidney Ross, ainda estivessem por aqui, certamente diriam:

- Sigam-me os criativos!